segunda-feira, março 17, 2014

Por um punhado de blues

Vontade de colocar a mão no peito,
atravessar a carne e abraçar o coração com a palma.

Tenho raiva da Cecília;
também tenho fases,
mas já não posso cantá-las por conta do plágio,
da infração autoral,
da ética, da vergonha,
mas as tenho - e são muitas.
Dezenas, infinitos balcões em caracol subindo a negra torre.

Agora, ela já disse que
como eu
como ela
como Aline, como Arabella,
tem fases
como a lua.

E agora?
Cecília me calou,
e por isso tenho raiva da Cecília.

segunda-feira, outubro 28, 2013

...e ele morreu calado. Recolheu a vida que escorria líquida pelos braços, juntou os pedaços e foi, e tudo que parecia grande perdeu importância.
...sabia tanto e não sabia nada, quanto mais sabia mais realizava que na verdade não sabia mesmo de nada. Tomou um banho e uma breja pra pensar melhor, e porquê segunda-feira. Fazia dois dias, e não parava de pensar naquela festa na quatro-zero-cinco, ainda surpresa ao revisitar a volta pra casa as quatro, tentando entender aquela noite estranha que estava no fim das contas como que destinada a acontecer, que ela previu pois já sabia que começava a trocar os pés pelas mãos, o comportamento off, as mãos inquietas, o silêncio pesado de peito cheio de quem separa os lábios pra quase falar uma cascata interminável, um novelo infinito, mas desiste - um pé na montanha e outro no ar, no abismo, o vento gelado nas costelas abertas pelo suspiro fundo do desejo de dizer a verdade, de desvestir...voltava pra casa com o ar preso na garganta e soluçava, mas mais que isso, era o corpo inteiro que com a tensão do frio, dos ossos, dos dentes, sobbed and sobbed and sobbed and sobbed...

domingo, dezembro 09, 2012

Anna, Max.

Vão as nuvens passando, lentas...e nada mais importa, tudo é completo. A água macia caminha com o vento no ritmo suave que negociaram, assobios emolduram o retrato tão antigo, nascido há tanto, da condição escancarada daquilo que por o ser, o é. E assim conquista-me a plenitude, transbordando de sentido por não ser preciso procurar sentido algum.

segunda-feira, abril 09, 2012

Ah, amor...
Ah, coração...
Ah, alma que se perde em meio a tanto encanto,
a tanto ar de respirar;
se perde nos cachos, nos olhos narradores,
no riso mudo.
Qual a história da estória,
qual o homem atrás do conto, atrás da camisa?
De onde veio, quais os rios atravessados,
quantos foram os amores não devolvidos?
Com o que sonha quando acorda e quando dorme?

E assim, mais uma vez, e uma vez mais além da outra,
pergunto-me sobre a farinha do ser
(tal qual repetia aquele chileno)
e desejo a mesma casa em Valparaiso,
a mesma brisa e o mesmo ar salgado
que me entregue os sons do mundo embalados em concha,
baião de ninar.
E canto o desejo de que haja paz pra se pensar por quanto tempo se queira
sobre as minúcias minuciosas,
os pormenores particulares do damasco, do lírio, dos átomos e dos olhos,
sobre amores e viagens no tempo,
sobre sonhos.
Sobre conversas, sobre beijos,
sobre tudo que há para ser pensado.

domingo, fevereiro 19, 2012

Você é um pouco de update,
a versão graduada do meu primeiro namorado;
mastigo suas fotos e me pergunto
se imagina o azul que eu penso,
se constrói os mesmos castelos
e se pergunta o que acontece.

Dramatizo tudo.

sábado, dezembro 17, 2011

Uma ode ao fim de um dia

...e o sol se pondo em cores tão límpidas, cores tão cristalinas, e pintando o céu com laranja-sangue, rosa, lilás, as cores se perdendo em beijos e se misturando em nuvens, e um traço marca-texto no horizonte tão vivo que parecia um oceano de fogo lá no longe, fazendo fundo pra árvores de silhueta negra que deixavam a pintura toda um pouco africana, e fechando os olhos a brisa suave fazia parecer que se estava na savana, e a linha de marca-texto perfeitamente reta marcando o fim preciso do dia, o fim que é também começo, o começo da noite, o começo do outro dia, e um homem diante disso nada pode fazer que não chorar por toda a beleza tão pura desse mundo e por todas as coisas mais profundamente tristes também...

domingo, julho 31, 2011

Saudade daquele gnocchi recheado de primeiro beijo,
acompanhado de frio na barriga ao molho pesto.
Nenhuma paixão deve ser servida fria,
que o amor tem que vir sempre borbulhando.
É intradutível a angústia de me ver aqui sentada
esperando a vida começar.
Esperando pelo fim do prólogo, da introdução,
aguardando o som metálico do sino e seu eco controladamente infinito
anunciando que agora o viver é de verdade,
que acabou o aquecimento.
No more make-believe.

terça-feira, julho 12, 2011

Manifesto d'água

Meus amores, meus muitos corações
rasgados e remendados
ao longo dos anos desdobrados que vivi
me fizeram quem sou: alma exposta em carne viva,
pausa de partitura, flor comestível.

Eu sou para dizer as caras que o amor veste,
pra escancarar o passo-a-passo do querer bem
e ridicularizar o medo infundado de se apaixonar.
Tudo que eu vi,
os lugares onde deixei parte de mim
e as loucuras sãs que experimentei,
cada fotografia recortada e cada linha escrita,
cada minúcia de existência, cada vão,
tudo disso foi parte do meu treinamento.

Que o que eu mais posso ensinar nessa vida
é do que é feito o amor.

quinta-feira, junho 23, 2011

Vontade de comer a noite, lamber dos dedos
o que acabou sem ser bastante
e de voltar dançando nas horas
pegando carona naquela nota suspensa,
aquela que ficou no ar quando foi tudo silêncio.

Você sabe que me têm nos dedos,
sabe que me tem e se aproveita de mim,
deste pobre coração que não tem freio
pra fazer de mim seu rendez-vous.
E quando de um susto descobrir,
quando de repente perceber que
eu entrei devagarzinho nos seus sonhos,
quando ler toda a música dos meus olhos
e quiser beber meu oceano,
uma vida vai ser muito, muito pouco.

Want you to take me, take me,
oh, take me to the dreamer's ball.

domingo, junho 19, 2011

"Os dias viraram um fio contínuo
onde noite e dia se misturam,
se misturam a dor e a alegria
tão rapidamente, e sem que eu perceba,
que não sei mais se a hora é de rir ou de chorar.
Não sei mais me comportar socialmente
e essa imensa rede tecida de jogos, de estratégias e de malícias
pesa mais que trinta elefantes.
O segredo inerente da existência me cansa
e eu chego,
como viajante que aproxima da fronteira,
perto demais de expôr todas as minhas verdades.
Perto demais de dizer que o que eu quero não é nada do que eu disse,
e de revelar de vez os meus segredos.
De contar os meus motivos e ler o que você acha disso,
e saber se teu coração é grande o suficiente
pra suportar a prosa e a poesia que eu respiro."

segunda-feira, maio 23, 2011

Como são tristes os momentos da existência
em que a gente se dá conta,
como que acordando de um sonho,
que o viver no fim das contas
é um evento totalmente solitário.

domingo, maio 22, 2011

É quase Junho,
e em mim o ano mal começou.
O que fazer daquela lista,
aquela de promessas e novos hábitos
de poucos meses atrás?
O que fazer pra segurar o tempo na coleira,
frear sua habilidade master
de fazer mágica com o calendário,
onde comprar uma gaiola que o prenda
mas que o deixe cantar de vez em quando?

Passeiam pelos meus dedos
as horas que não me esperaram chegar,
passam por mim como trem veloz
que não deixa amadurecer a paisagem
por onde passam seus trilhos.
Se encondem, tímidas da sua aparência etérea,
da volatilidade dos seus tantos braços
e da falta de exatidão das suas cores.

E nessa falsa inocência,
entre o rastro de riso e de vento que deixam pra trás,
fico eu, inconsolável com tudo o que herdei.

segunda-feira, maio 16, 2011

A palavra, uma vez que nasce,
cria vida e sai voando da boca da gente
feito passarinho ligeiro.
Na sua pureza não sabe
se é feia ou se é bonita,
doce ou azeda de tudo;
sai por aí beijando os olhos
e ouvidos dos passantes
e enchendo o ar de verdades.

Vai planando e só quer saber de brincar,
não sabe do poder que tem:
de lavar sorrisos de uma cara
ou de fazer lembrar de coisa boa.
A palavra, uma vez que nasce,
cria vida e sai voando da boca da gente.

sábado, abril 16, 2011

Rendicao

E eu nao sei mais o que fazer,
nem como levar os dias que me restam
quando a vida que eu vivo no sonho,
que eu vivo na fantasia minha,
me convida mais que aquela
do abrir de olhos.

Quando de dia
o meu sorriso é feito de vento.

Como competir com esse mundo de mentira,
com esse labirinto imaginado
se nele você vai sempre a um lábio de distância,
a um par de braços de mim?
Quando há tanto tempo para me demorar no seu peito
sem que o relógio devore as horas,
como não querer estender o sono,
indefinidamente?

Me rendo,
me entrego,
desisto,
perdi.

domingo, março 13, 2011

Maldito homem moderno e seus 100 giga de informação,
maldita avalanche incessante de notícias,
maldito o acúmulo de conhecimento.
Amaldiçoado seja o carro do ano, o gadget de amanhã,
o financiamento que endivida eternamente por banalidades.
Que morra toda regra inútil de conduta,
todo bom comportamento e toda alienação,
que cessem todos os noticiários por um ano.
Que emudecam os automóveis e suas buzinas,
as bancas de jornal e seu fluxo alienígena de novidades.
Que se extingua a obrigação social do jantar de negócios,
o crime de repetir a mesma roupa em festas diferentes,
a monogamia, a monografia e a novela das oito,
que evaporem os paparazzi da vulgaridade e suas lentes de aumento.
Os economistas e seus gráficos de Babel.
Organizemos um velório de proporções nunca vistas,
vamos enterrar em covas consecutivas os salários,
as segundas-feiras, a comida já envenenada e a água de garrafinha.
Vamos botar abaixo tudo aquilo que rejeitamos,
os arranha-céus, as academias de ginástica e as antenas parabólicas.
Abençoada seja a nossa capacidade de mudança.

sexta-feira, março 11, 2011

E eu vejo o desenrolar do dia de chuva:
dessa água que cai do céu pra lavar desejos,
da calma que invade o ânimo e acorda a alma,
desse exército liquefeito de gotas ínfimas.

E eu me vejo saindo da casca pra ver o dia,
e eu sinto voar do peito esse canto tímido.
E deixando entrar a chuva nos meus cabelos
eu encharco, afogo todo o peso da vida.

É preciso pagar pelos pratos partidos do futuro,
pela tarde, pela noite mal dormida
pelas tantas palavras já ditas e ja repetidas
pela preocupação constante com minúcias.

terça-feira, março 08, 2011

Essa é poesia pra se ler devagar,
pra se ler respirando fundo...
pra se ver esquecendo as horas,
esquecendo o tempo,
esquecendo o mundo.....

Pra se ler ouvindo Piazzolla,
se sentir devorado a fundo
pra trancar os monstros pra fora,
anular o drama de tudo

Pra soltar o que aconteceu e o que nao será
e ensinar a desaprender a se controlar,
dissipar a infinita bobeira do receio:
sustentar o ser e esquecer qualquer traço de medo

é pra amenizar as idéias dai de dentro,
celebrar a falta de rima da essência
pra deixar se misturarem claro e escuro,
e pra esticar de fato as reticências
E é desse encanto que eu falo e não me canso,
dessa onda de desejo acumulado...
dessa ânsia que espreita atrás da porta,
desse vulto que me cerca e olha,
do jogo que não cessa quando corre ou quando pára:
desse enfarte do beijo roubado.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Porque um lobo sairá das matas
e morderá aquele que nao sonha
aquele que se acostumou tanto com o sol,
e com a chuva,
que nao sabe mais do milagre
de um dia depois do outro,
desse fato tao passível de explicação
que é a dança das marés,
que é o tango intrincado de carros num engarrafamento,
que é a delícia única de fruta que nasce no pé.

Esse dia virá,
e ficaremos todos assim tão boquiabertos
com a leveza assim vulgar da inexistência
que nao se falará mais da vida que não foi vivida
ou daquilo que não foi provado,
mas serão retrocedidos os relógios
até a hora em que eles próprios,
os ponteiros,
sejam etéreos, irrelevantes.

E quando for possível entender de que farinha,
de que pó ou qual madeira é feita a vida,
aí então poderemos quedar-nos por longos momentos
a fotografar com os olhos tudo o que antes não se via.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Sobre a tarde

As horas escorrem.
O sol se deita no sofa para descansar
enquanto borboletas cor-de-sangue, cor-de-pele, cor-de-vento,
entram pela janela para beijar seu rosto que dorme.
Toda tarde,
quando chega a hora
em que as sombras das coisas todas se misturam,
quando saem às ruas aqueles que ja se cansaram
de muito trabalhar,
eu pego o meu caderno e a minha pena
e procuro um banco que me ouça para me sentar.

Ser sozinho nao é estado passageiro,
e assim como cada flor se recolhe em botao no fim do dia,
eu volto pra casa e abraco a noite
companheira de mim mesma.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Simples assim

Nao preciso de asas para voar;
tenho o coracao livre.

Quebradas

Aqui,
pedaços de céu recortado onde as Montanhas,
como guardiãs do vale,
assistem dias de agricultura e noites de sono das plantas,
que com respiração profunda e lenta
inalam átomos estelares que serão a farinha do amanhã,
das batatas do sustento andino,
da quinua e do amaranto;
do que já se conhecia muito antes da chegada dos espanhóis.
Do que sobreviveu à mudança do tempo e das estações.

La e Ca

Diferente da rua Maruri,
as casas da Protógenes Vieira se querem muito.
Cuidam umas das outras como cuidam-se os vizinhos,
nessa rua onde ainda se usa pedir xícara de acucar
e rezar a novena na casa do fulano, coitado,
que anda doente.

Aqui logo se repara na casa de vaidade boa
que quis se vestir de azul antes do Natal chegar,
e que falta faz o bom dia de sotaque meio búlgaro da Dona Verônica.
Saudades de olhar três, quatro vezes por dia
a caixinha do correio
so porque a portinha era tao mimosa que dava vontade de abrir
(mas era preciso pular a fileira de onze-horas),
de sentar nas janelas imensas descascando mimosa,
de usar o cedrinho pra brincar de pula-sela.

Saudades daquela inocência gostosa de crianca,
do tempo em que a escolinha era todo o meu universo e a minha mãe,
tao caprichosamente,
ordenava pequenas filas de biscoito
e fazia "naiche" pra eu levar na minha lancheira vermelha.
Saudades de quando dinheiro era sinônimo
de comprar licorzinho no Mengarda,
e da emoção de receber uma carta daquele guri que,
na fuga,
deixou pra tras um pé do chinelo.

Saudades de tantas páginas ainda em branco,
só esperando no silêncio do céu cheinho de estrelas
alguma coisa acontecer pra molhar a pena no tinteiro do destino.

Retorno

E porque a vida tomou um gosto constante de fruta que amarra a boca,
porque o vento frio fez bater com uma rajada forte a porta do meu coração,
foi que eu nao consegui mais escrever.

Não que nao tenha havido dias de beleza única,
dias de flor desabrochada pra me inspirar;
é que mesmo essa beleza sincera,
quando chegava de visita no meu peito
e encontrava quilômetros de espinho e névoa,
se dava conta de que pra alçar vôo e enfrentar tantas dessas barreiras
chegaria no meu coração - essa chama que as vezes tem sono,
como pássaro ja sem penas.

Imperatriz

Boa coisa subir no Monumento
e tomar posse da cidade toda nos meus último dias.
Eu conquistei essa cidade de tantas muitas maneiras
(porque ela já tinha me conquistado
muito antes de eu vir)
e subir esses tantos degraus
amarrar as pontas do que foi feito por 17, 18 meses e uns tantos dias
daquilo que foi dancado quinta apos quinta,
quase religiosamente (que dançar é chegar perto de deus).
Daquilo que foi provado,
do amargo e do doce que tantas quantas vezes eu quis experimentar,
das casas vitorianas que me olham quando eu passo.

Eu conquistei tanto de mim mesma
e do que é ser eu, nos meus milhões de eus
do que é existir e de quais são os meus desejos
que na integridade de ser sim e não num balanco sempre caótico,
eu conquistei essa cidade e assim ganhei meu fictício lado de imperatriz.
Eu sei que o coracao amarelo é coisa minha,
mas cade o sal da vida de quem vive com medo de se machucar
e nao se joga sem antes medir a altura do tombo?

Cade o viver??

Nao engulo esse medo de arriscar.
Acho puro pecado
e um sacrilegio com quem sequer teve a sorte de nascer.
Preguicosamente te implorar por mais cinco minutinhos,
pra espreguicar e comecar o dia;
te ensinar as coisas mais banais,
beber as futilidades da vida.
Colocar flores na mesa, enfeitar eu e voce.

Te alfabetizar na minha lingua.

Saber dos naos, dos quases e porques.
Cansar, descansar, repetir.
Trazer pro real isso tudo que ainda é fantasia.
Noite de ontem, noite de dias atras.

Sera que foram os amores fracassados
que me tiraram a certeza daquele beijo
jogado de la pra ca?
Ou a longitude daquele abraco do comeco
é insistencia minha do amor ainda nao comecado?
Bom seria poder saber se observo demais ou de menos,
mas que ponto fixo eu tenho pra comparar
alem da minha propria existencia?
So especulacoes. Pra mim, e pra voce tambem.

Eu fico com o beijo jogado.
Hoje eu so quero coisas bonitas,
quero a musica mais gostosa e a poesia de Neruda
quero a beleza desse dia de chuva, beber um filme
que me transcenda.
Hoje eu sou so objeto de todas as coisas,
sou toda pele e poros abertos
toda ouvidos, toda sabor e paladar.
Tanta coisa,
tanto mundo meu pra colocar pra fora
e ainda nao sei como.

Nao sei pintar,
nao tenho a tecnica da fotografia,
certamente nao nasci pra bailarina profissional.
Nao sei contar piadas
ou inventar historias,
e sei que nao daria boa atriz.

Me persegue todos os dias,
incessantemente,
a ideia de que sou pessima escritora.

Poeta? Por favor!
Essas e tantas outras linhas sao de fazer vergonha
e as pessoas que, por ventura, agrado,
certamente nao tem gosto algum.
Me faltam palavras,
frases, imagens,
nessa lingua que engulo diariamente ha 23 anos
(porque sim, ainda antes de nascer sei que a minha mae pra mim cantava).
Vinte e tres anos que me fizeram em nada!
Estudo, escola, ingles, espanhol...nada!
Um pouco de cada coisa nada mais é que uma montanha de nada.

Como me incomoda a incapacidade de ler Nietzche
(Dostoievsky me cai bem, mas e dai?),
de nao ter a habilidade de por horas discutir a guerra no Iraque.
Nao sei quais das minhas conviccoes sao minhas,
e quais comprei por uns trocados numa banca de jornal.
Que moda eu sigo? Qual a minha unicidade?
Sera que um dia vou ser mae?
Quando vou chegar ao fim de algo
sem desistir no meio do caminho?
Quando vou conseguir seguir uma dieta
e perder 2, 4 quilos?
Quando um poema meu vai ser, do comeco ao fim,
satisfatorio?

Perguntas sem resposta.
Falar de mim mesma so pra mim as vezes cansa.
A mesma perseguicao de sempre?
Espero logo encontrar o antidoto.
Entre uma praia pra morar, uma tatuagem e um laboratorio,
me fico em Londres;

Num ap globalizado,
num colchao de ar, inflavel,
do peito do namorado,
me fico.

Ah, a falta de quietude de tantos dezoito anos,
do fervor da decada de 90.
A falta de senso, de tato, de gosto e de pudor.
A delicia unica da falta de juizo
(e de tantas traducoes simultaneas).
A delicia impagavel da luz baixa,
de chocolates e musicas italianas,
do som limpo de um violao virgem e de goodnight kisses.

A delicia daquilo que mesmo depois de pronto, nao acaba.
Calem-se, calem-se todos!
Calemos, juntos, para que nada se ouca alem dos nossos pensamentos.
O meu, sei bem onde fica,
sei bem onde esta e onde estacionou ha horas.
Calada assim, calados todos, talvez se possa ouvir la ao longe
qualquer movimento de onde meu pensamento chega:
de la, depois do mar,
talvez eu ouca um farfalhar de asas do caminho de volta,
entao calem-se,
calemos todos no mais profundo e limpido silencio.

Estatico, assim calado,
posso ate ver o fio
- que agora sei ser azul-claro -
que conecta la e ca.
O fio que vai
e o fio que vem
(as vezes temo que se encontrem e, pelo meio do caminho, papeiem,
esquecendo a missao original).

Quanto desencontro se um fio, desses,
se quebra,
desvia,
se esquece,
quanto desencontro!
Quanta agua que cai, que rola, se um fio desses
resolve virar corda,
resolve nele mesmo se enrolar ,
quanto sal.

Me encanta a perfeicao do corpo,
humano.
Porque num segundo, num segundo
eu vou da vida a morte, da morte a vida,
da flor que antes de nascer se esconde
a onda que antes de quebrar se entrega.

Do vinho nunca aberto ao pao nunca feito,
eu passo.
Como sol que caminha a passos vagarosos toda a imensidao do dia,
passam por mim pensamentos em correnteza.
Nesse meu ceu as ideias passam, as cores, as cenas,
as minhas constelacoes nessa abobada terrestre.
Imito (quase) sem saber
os movimentos maiores do universo.

Meu eu é meu proprio mundo,
e eu sou para conhecer e explorar tantos outros universos pessoais.
Agora.
Hoje.
Porque logo,
mais tarde,
nao sei.

Paris

O pulso da parada de Saint Paul.
O pulso do quarto andar,
da porta que abre,
do quarto,
da dor de cabeca e do sapato no chao.
De musicas e pinturas traduzidas.

Do tao quente,
do tao frio,
do outro peito pulsando no meu peito,
do suor e do descanso.

O pulso vermelho do sono e da manha.

Da porta que abre, que fecha,
que abre e que fecha seguido.
O pulso azul do dia,
e o pulso amarelo da volta.
A poesia da vida
no dia de cada dia.
A estranha sincronia de pernas com um estranho.

Porte de Bagnolet,
Gallieni.

Europa primeira

"O riso do gato;
a cara
do namorado."

quarta-feira, novembro 11, 2009

Um bilhetinho,
tudo por um bilhetinho
que voce leu,
e esqueceu.

Meu deus!

Tudo por poesia na minha pele,
bicos e interrogacoes.

Me liquefaco,
derreto feito calda
(feito dulce de leche)
quando se quebra o seu silencio.

Com poucas palavras
voce me ganha,
duas ou tres frases
e eu me rendo.

Conversa de namorado.
De namorado!

Sorriso...

terça-feira, janeiro 20, 2009

Sou eu, eu e mais ninguém.
Sou eu que me deito comigo mesma
pra falar de qualquer coisa,
falar nem sei de que.
Sou eu e meus desenhos,
eu e minhas marcas,
eu e minhas rosas, fadas, notas e corações.
Sou eu e a minha poesia de corpo,
eu e a melodia da saliva minha.
Eu e meu próprio silêncio,
meu próprio diálogo e monólogo,
meu teatro.
Minhas conjecturas (caras, todas muito caras),
meu alfabeto mono-poli-linguístico.
Eu e minhas sinapses,
minha química,
meus botões (que nem tenho).
Eu e a minha contagem do tempo,
meu segundo de duração totalmente particular,
meus lençois e meu sonhado cheiro de lavanda.
Meus adorados cachos.
Eu e eu.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

E eu penso que todos os poetas são poetas dos olhos. Alguns, são poetas fotográficos, e há, de certo, poetas para todos (e de todos) os sentidos. O poeta do gosto, que delira com um morango ou framboesa; o poeta do cheiro, provavelmente com um pezinho no passado - um vestido (guardado), um cabelo, um bolo de laranja feito pela vó.
O poeta do som talvez possa ser o músico, mas não: ainda é o poeta do som, da sinfonia dos passos cruzando a calçada, da babel de um metrô parisiense, londrino, paulistano...
Pobre daquele que é poeta da pele. As prateleiras da botica do tato são de certo as mais vazias, as de menos e mais exóticas palavras. Penso no poeta da pele como um homem enlouquecido, com tanto pra dizer em uma tarefa quase impossível: sinapses, sinapses, sinapses. Depois de muito, ele atira o chapéu ao chão, toma um café e se cala, pensando que talvez, melhor ser pintor.
Dos dedos, narinas, da língua, ouvidos: todos os poetas são poetas dos olhos.

quarta-feira, agosto 20, 2008

A lua branda, grávida e amarela,
paira num horizonte ainda dia.
Em cada esquina (em uma bicicleta que não é minha),
páro os pedais e me sustento, em pé,
a vendo sumir e se mostrar entre as casas residenciais.

Respiro moléculas de lua, trazidas por um vento
distante e sereno,
que vindo de longe viajam
para encontrar a superfície da minha pele.

Como é plena uma molécula lunar
ao beijar uma célula terrestre
e como é pura qualquer coisa que se deixe
acariciar por uma brisa de além-mundo.

As estrelas em sua rotina celeste
sussurram notas de bossa
(ou seriam versos d'água de Neruda?)
e a cada fusa, a cada pausa,
cada mínima que entra, a cada linha,
desvaneço.

Se esvai qualquer traço de tristeza,
de angústia, choro, fome ou desespero.
Cada poro é embebido em plenitude
e cada nervo é completado por um cheiro.

E resgato essa delicia quando quero
essa noite em que a lua foi só minha
e na qual fui sua clara e plenamente.
Não seria, essa troca, fantasia?
E se ela se doasse a outros seres?

Pouco importa a exclusividade dela
ou se ela foi cantar pra outras flores
a imagem é só minha, e é só meu
o impacto dessa brisa em meus amores

Não me deixo permitir nem por um dia
esquecer essa sinestesia pura
pra que o cheiro, a calma, a bossa e a partitura
não se sumam nem me deixem como nua
mesmo o dia tomando o seu campo escuro
Não há risco que essa pauta o sol derreta.

sábado, março 08, 2008

A pedidos, Neruda

“Tu perguntas o que a lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados.
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu
Perguntas sobre as plumas do rei pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.

Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida em seus estojos de jóias, é infinita como a areia, incontável, pura; e o tempo entre as uvas cor de sangue tornou a pedra dura e lisa, encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou os seus fios musicais de uma cornucópia feita de infinita madrepérola.

Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho, como tu, investigando a estrela sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe preso dentro do vento”.

sábado, fevereiro 16, 2008

Sou poeta dos olhos,
poeta; mas apressada que sou,
quando nasci
e vi o milagre de tudo
acontecer,
não esperei.
Não dei tempo para que amadurecessem,
em mim, as palavras,
e me fiz poeta dos olhos.

Me arrefece
a molície de Neruda,
suas ameixas,
o rio da tribo de Caeiro
e a poesia que declamam,
em minha casa,
as violetas e as flores do hibisco.
Me enfarta a melodia de Amélie.

Espero o dia em que morrerei
afogada com a poesia da vida na garganta.

segunda-feira, maio 01, 2006

Giz-de-cera

"Me traduzo, em indecência, em giz-de-cera;
as certezas, pinto com giz-de-será.
Qual será o giz do ser, o giz da essência?
E quão fino ou grosso é o traço do andar?"

Giz-de-cera

"Me traduzo, em indecência, em giz-de-cera;
as incertezas, pinto com giz-de-será.
Qual será o giz do ser, o giz da essência?
E quão fino ou grosso é o traço do andar?"

sexta-feira, março 03, 2006

Cantiga pra ninar

"Me leia em entrelinhas,
entre dez mil andorinhas,
mas leia
mas seja
mas note

Me envolva em um valsado,
pode ser mal ritmado,
mas dance
mas canse
mas rode

Me trance em teus abraços,
faça dos teus dedos laços,
mas sinta
pressinta
me enrole

Me altere os pensamentos,
lance-os entre arvoredos,
mas ouça
assim, rouca,
a sorte

E se entre as dez mil linhas,
entre meios de andorinhas,
houver
só fim
só ponto

Não se prenda em minhas notas,
em meus lençóis, minha porta,
e vá
mas volte
enfim"

domingo, fevereiro 19, 2006

Conto de Copas e Espadas

_____"Não era uma vez, mas uma vez aconteceu...e por acreditar nos contos e nas fadas das crianças é que se pôde no assoalho perceber a agitação de umas caixas de baralho, e espiar mais de pertinho pra saber qual o motivo do barulho e da lambança. Foi uma dessas meninas que viu, do lado de cima, e que depois contou o conto, sem ponto de aumento nem nada; e que acredite quem puder voar mais alto...
_____Mas o caso que se conta, no final do fim das contas, é que sem que ninguém desconfie as cartas juntam-se, imagine!, duas vezes por quartil, numa espécie de in memmorium lá por volta de Abril, onde dançam, bailam e bebem vinte dias sem parar. Cada naipe traz consigo uma espécie de homenagem que remonta aos tempos dos mouros, dos cavalos e moagens, das toadas, das cantigas, histórias imaginadas. Eis que esse ano, justamente, Copas e Espadas resolveram juntar mentes, e juntamente cantar para os outros uma história, da glória, luta e memória de uma vila, a das Cem Horas. Depois do Ouro e de Paus, foram os Reis de cada qual representar toda a família. E o que disseram com ribaltas, mil violinos e flautas, foi que um dia foram vivos como todo bom humano, até que um amor mal visto alterou de vez os planos, e acabou na perdição. Copas, Paus, Ouro e Espada foram quatro linhagens distintas, cada qual com seu Rei e seu reino, mas todos numa só vila, mesmo não convivendo com jeito.
_____Um desavisado rapaz, de Copas e andando em paz, passou dos limites de um reino e acabou por passar, com efeito, pro reino que estava ao lado. Encontrou uma donzela que jamais se viu tão bela e que tomou seu coração, com doçura em uma mão e Espada em anel forjado. E a tal moça que ali estava colhendo umas flores, sentada, nem sentiu que o vento leve na verdade traria, em breve, um amor pra ser guardado.
_____Sem ligarem pro depois congelaram o agora, e embaixo de um pé de amora foram levados pela tarde, embalados por um mar de brisa e surtos de vontade. As horas duraram anos onde os toques mais profanos transformaram-se em carinhos, e a relva e o céu de veludo selaram assim em conjunto toda a musicalidade. Da dor fez-se o abraço, da mesmice, o cansaço, e das grades, aliança, de modo que ao despertar prometeram se encontrar no amanhã pra mesma dança.
_____Não viveram nesse dia, permaneceram planando enquanto a manhã se ria, esperando pelo instante em que os dois amantes insanos concretizariam seus planos. Chegado o singelo momento os dois jogaram-se ao relento desejando morrer pelo agora, e as cenas de outrora se repetiram eternamente. Mas na mente de um soldado que passava ali ao lado algo estranho acontecia, naquela hora do dia os campos sempre estavam calmos. Mas de onde vinham os risos que se ouviam lá de longe, como pássaros feridos cujo canto ecoa aos montes? Foi averiguar o fato, e qual foi sua surpresa quando reparou no ato de pureza e desacato?
_____Sem demora e resolutos, ainda tomados de susto, os três se entreolharam desejando se esconder. Porém o soldado do Rei, leal ao seu mestre de Copas, correu pela trilha de volta pra contar o acontecido, e acometido de raiva arrastou pela estrada o encantado pela Espada. A moça, entregue aos prantos, viu quebrar-se todo o encanto do infinito em um segundo, e em silêncio ali ficou vendo o céu cair no mundo por três horas sem parar, tentando acreditar que não foi sonho ou delírio. No campo cresceu uma flor brotada de sal e dor que ali por fim nasceu, depois que a brisa bateu e levou o amado embora: assim que surgiu o Lírio.
_____Para o moço o caminho demorou eternidade, pois tomado de saudade os ponteiros se arrastavam; com receio de jamais voltar a ver sua donzela, deixou pistas para ela sob forma de recados, e em galhos pendurou (longe das vistas do soldado) dezenas de flores que achou, embebidas de orvalho; assim pôde ir de encontro ao julgamento que teria, sabendo que cruel seria por tão grande a falta feita.
_____Chegando ao palácio real foi mandado a esperar enquanto o sagaz escudeiro foi, com pressa, ao Rei contar. Em instantes o que se ouviu foi um brado e um estrondo, que enchendo o salão de medo pôs o moço a ficar tonto: “Falta de juízo e senso eu já tinha visto antes, mas tinha você que se meter em tal volúpia e vil romance? Como Majestade de acerca me cabe tomar a atitude de condená-lo à desgraça para manter-se a virtude; será o primeiro exemplo e o último, faço gosto, de que Copas não são feitos pra se misturarem ao povo! E mandem pregar agora em toda praça o recado de que aqui nas minhas terras, com morte se paga o pecado!!”
_____O caso correu nos vales e pousou em todo o canto, de modo que os moradores estagnaram de espanto. A mocinha enamorada desfaleceu na calçada ao saber do triste fim que enfim teria a sua história, e tratou de, sem demora, ir até a praça central onde encerraria afinal o que mal tinha começado. Encontrou pelo trajeto as flores deixadas ao certo pelo amor que procurava...tratou de achar um disfarce para assistir ao desastre e tentar impedir o crime, mas chegando lá se deu conta de que havia fogueira pronta esperando cumprir-se a sentença.
_____O povo todo da vila pôs se a postos ao redor da fumaça que subia prum céu de pesar que, triste, assistia a folia. Trouxeram então amarrado e com capuz, o condenado, que parecia aceitar o mal tão irremediável. A desesperada menina, vendo tudo da esquina, pulou e chegou num salto aos pés do vendado, ao alto, clamando por piedade, e tomada nem se sabe de que tipo de euforia, desvencilhou-se dos guardas e como que por magia, foi ter ao lado do amigo, pra surpresa da cidade.
_____Disparou-se num discurso pra botar banca no povo, pois achava pouco justo sufocar o amor em dobro, e o que disse foi descrito como narra-se agora: “Não vêem, pobres tolos, que encontrar paixão demora? Não sentem em suas rotinas a falta dessa presença? De dar lugar ao carinho em lugar da indiferença? De que vale um reinado quando imerso em egoísmo, onde sequer se percebe que o amor é um correr riscos?...se divertem assistindo duas almas a ruir, um encontro separado, o egoísmo a difundir? Não me canso em ter tristeza por ver tudo tão perdido, e quando acho que me encontro me é tirado o que preciso?”
_____As palavras desfizeram-se no ar no mesmo ato, e as nuvens se lamberam pelas chamas como em quadro. Do peito da moça viu-se como sólido o soluço e rosto quase de vidro, nocauteado e não-vivo, desfez-se de puro susto...correu quase como em vôo até onde o vento levasse, e foi parar num rio rouco pedindo que a vida acabasse. E então tudo foi calor, tudo foi dia e foi delícia, o riso frouxo voltou sem saber pra onde ia, o corpo se transformou sem ver o que acontecia, fundiu-se aos pés de Laranja, de Amora e de Artemísia.
_____Ao ver-se de novo tão louco, o corpo falhou ao olhar, não podia acreditar no que já não admitia: não via em brasas o chão, sumiu toda a multidão, confusão já não havia. Levantou-se para ver se era real o que vivia, e notou tudo igual, tal qual como conhecia; porém tudo era mais vivo, tudo era mais claro, tudo era tranqüilo, e até o que era igual (como ao longe, o roseiral) ficou mais bonito ao dia. O ar dançou nova dança, o mato mostrou-se em trança e as cores ganharam nuances...o pôr-do-sol, já tão puro, mostrou-se então tão seguro como nunca havia antes, e o mar bateu no rochedo de uma forma que, nos dedos, podia sentir-se a firmeza.
_____Imaginem a surpresa quando ainda tonta e presa às imagens já formadas, viu surgir a alma amada montada em raio de luz. Planou um metro em distância, embebida na fragrância que exalam os sinceros, e desafiou as leis que encarceram a matéria quando quis, por inteiro séria, juntar seus corpos num ponto. Os braços se enovelaram de um modo que terminaram de selar o já selado, e longe e livres de tudo se foram, a correr mundo, nesse mundo novo e pronto.
_____Lá atrás as pessoas ficaram do jeito que estavam antes: o mesmo cachorro passava, o mesmo padeiro prensava, a mesma chuva caía... o mesmo dia findava, a mesma senhora varria...e o mesmo mesmo acontecia. Diferente, de verdade, foi a criança que assistia. Vendo o circo ali formado e desfeito num estalo, deixou mostrar-se sua forma natural, bruta, sombria, e aos muitos olhos crescia o que não se imaginava – a menina ali parada era alma a ver a armada, e que agora já não ria. Ao ver os pares de olhos ali fixos, bem parados, resumiu sua morada, seus motivos, seus recados:
_____“Não venho de longe nem perto, venho de um lugar que, ao certo, é bem diferente deste. Me cansei de ver aqui, já que sempre os observo, valores caindo com os dias e ordem marcada com ferro. Intercedo pelos povos que acredito já há tempos, e acompanho as mudanças, pondo em pratos de balança as faltas e avanços feitos...quis crer numa forma pura de bondade e amor divino, mesmo que muito escondido, morando nos peitos seus. Ao que encontro, dou adeus!, não quero ter de ter parte em tal forma injusta de arte onde há o forte e há o fraco, há o moralista e o errado, o rei e o mendigo nato. Há névoa por toda parte escondendo-lhes, na verdade, o real valor da vida...por isso julgo-me sábio e em poder de tecer meio que poupe mais sofrimento, mas que ensine ao melhor jeito o singular que é o viver.”
_____Na praça alguns gargalharam com a louca que, juravam, era maga ou semelhante, mas tirando as reações (diversas como estações), nada movimentava. Continuou a falar e o tal trato, a reforçar, explicando enquanto andava:
____“O meio é simples, consiste em trocar tudo o que existe pra vocês por outro mundo. Serão outra forma de vida, viverão dez mil partidas, cada qual terá seu lucro...serão por fim retornados ao modo a que estão adequados e as coisas serão como antes, exceto pela diferença que sentirão ao, na mesa (de jogo), serem descartados. Verão como é ser desprezado, e como é ser importante; o Rei saberá da exaustão, como é depender de outra mão, e o bobo seguirá adiante, dessa vez como Curinga e não mais sendo da corte. As linhagens existentes seguirão outras vertentes e ao final, se mesclarão; os artesãos serão Ases, e os moradores as bases desse jogo então formado. Por adiantamento é o que digo, o resto será esculpido por vocês a cada dia.”
_____A praça se viu num clarão mais forte que a luz do dia, e a fumaça que, há tempos, da fogueira já subia, retornou e começou a descer e a tomar corpo, pegou todos tão absortos pelo discurso eloqüente que nem pôde se mostrar tão grandiosa e envolvente quanto realmente queria.
_____O resto (ou metade) da história é o ponto de partida, e a festa celebrada é uma forma imaginada de voltar aos velhos tempos. Como cartas já se sabe ou se imagina o que acontece: muito mais fácil pensar, mais horas pra filosofar, idéias lançadas ao vento; mais leves pra se sonhar com o mundo que, ao voltar, verão mais singelo e mais lento...portanto se uma carta ou baralho todo sumir um dia, não se espante e feliz fique, pois dez mil partidas se foram e mesmo com todo o retorno, não se foi a fantasia...”