segunda-feira, março 17, 2014

Por um punhado de blues

Vontade de colocar a mão no peito,
atravessar a carne e abraçar o coração com a palma.

Tenho raiva da Cecília;
também tenho fases,
mas já não posso cantá-las por conta do plágio,
da infração autoral,
da ética, da vergonha,
mas as tenho - e são muitas.
Dezenas, infinitos balcões em caracol subindo a negra torre.

Agora, ela já disse que
como eu
como ela
como Aline, como Arabella,
tem fases
como a lua.

E agora?
Cecília me calou,
e por isso tenho raiva da Cecília.

segunda-feira, outubro 28, 2013

...e ele morreu calado. Recolheu a vida que escorria líquida pelos braços, juntou os pedaços e foi, e tudo que parecia grande perdeu importância.
...sabia tanto e não sabia nada, quanto mais sabia mais realizava que na verdade não sabia mesmo de nada. Tomou um banho e uma breja pra pensar melhor, e porquê segunda-feira. Fazia dois dias, e não parava de pensar naquela festa na quatro-zero-cinco, ainda surpresa ao revisitar a volta pra casa as quatro, tentando entender aquela noite estranha que estava no fim das contas como que destinada a acontecer, que ela previu pois já sabia que começava a trocar os pés pelas mãos, o comportamento off, as mãos inquietas, o silêncio pesado de peito cheio de quem separa os lábios pra quase falar uma cascata interminável, um novelo infinito, mas desiste - um pé na montanha e outro no ar, no abismo, o vento gelado nas costelas abertas pelo suspiro fundo do desejo de dizer a verdade, de desvestir...voltava pra casa com o ar preso na garganta e soluçava, mas mais que isso, era o corpo inteiro que com a tensão do frio, dos ossos, dos dentes, sobbed and sobbed and sobbed and sobbed...

domingo, dezembro 09, 2012

Anna, Max.

Vão as nuvens passando, lentas...e nada mais importa, tudo é completo. A água macia caminha com o vento no ritmo suave que negociaram, assobios emolduram o retrato tão antigo, nascido há tanto, da condição escancarada daquilo que por o ser, o é. E assim conquista-me a plenitude, transbordando de sentido por não ser preciso procurar sentido algum.

segunda-feira, abril 09, 2012

Ah, amor...
Ah, coração...
Ah, alma que se perde em meio a tanto encanto,
a tanto ar de respirar;
se perde nos cachos, nos olhos narradores,
no riso mudo.
Qual a história da estória,
qual o homem atrás do conto, atrás da camisa?
De onde veio, quais os rios atravessados,
quantos foram os amores não devolvidos?
Com o que sonha quando acorda e quando dorme?

E assim, mais uma vez, e uma vez mais além da outra,
pergunto-me sobre a farinha do ser
(tal qual repetia aquele chileno)
e desejo a mesma casa em Valparaiso,
a mesma brisa e o mesmo ar salgado
que me entregue os sons do mundo embalados em concha,
baião de ninar.
E canto o desejo de que haja paz pra se pensar por quanto tempo se queira
sobre as minúcias minuciosas,
os pormenores particulares do damasco, do lírio, dos átomos e dos olhos,
sobre amores e viagens no tempo,
sobre sonhos.
Sobre conversas, sobre beijos,
sobre tudo que há para ser pensado.

domingo, fevereiro 19, 2012

Você é um pouco de update,
a versão graduada do meu primeiro namorado;
mastigo suas fotos e me pergunto
se imagina o azul que eu penso,
se constrói os mesmos castelos
e se pergunta o que acontece.

Dramatizo tudo.

sábado, dezembro 17, 2011

Uma ode ao fim de um dia

...e o sol se pondo em cores tão límpidas, cores tão cristalinas, e pintando o céu com laranja-sangue, rosa, lilás, as cores se perdendo em beijos e se misturando em nuvens, e um traço marca-texto no horizonte tão vivo que parecia um oceano de fogo lá no longe, fazendo fundo pra árvores de silhueta negra que deixavam a pintura toda um pouco africana, e fechando os olhos a brisa suave fazia parecer que se estava na savana, e a linha de marca-texto perfeitamente reta marcando o fim preciso do dia, o fim que é também começo, o começo da noite, o começo do outro dia, e um homem diante disso nada pode fazer que não chorar por toda a beleza tão pura desse mundo e por todas as coisas mais profundamente tristes também...

domingo, julho 31, 2011

Saudade daquele gnocchi recheado de primeiro beijo,
acompanhado de frio na barriga ao molho pesto.
Nenhuma paixão deve ser servida fria,
que o amor tem que vir sempre borbulhando.
É intradutível a angústia de me ver aqui sentada
esperando a vida começar.
Esperando pelo fim do prólogo, da introdução,
aguardando o som metálico do sino e seu eco controladamente infinito
anunciando que agora o viver é de verdade,
que acabou o aquecimento.
No more make-believe.

terça-feira, julho 12, 2011

Manifesto d'água

Meus amores, meus muitos corações
rasgados e remendados
ao longo dos anos desdobrados que vivi
me fizeram quem sou: alma exposta em carne viva,
pausa de partitura, flor comestível.

Eu sou para dizer as caras que o amor veste,
pra escancarar o passo-a-passo do querer bem
e ridicularizar o medo infundado de se apaixonar.
Tudo que eu vi,
os lugares onde deixei parte de mim
e as loucuras sãs que experimentei,
cada fotografia recortada e cada linha escrita,
cada minúcia de existência, cada vão,
tudo disso foi parte do meu treinamento.

Que o que eu mais posso ensinar nessa vida
é do que é feito o amor.

quinta-feira, junho 23, 2011

Vontade de comer a noite, lamber dos dedos
o que acabou sem ser bastante
e de voltar dançando nas horas
pegando carona naquela nota suspensa,
aquela que ficou no ar quando foi tudo silêncio.

Você sabe que me têm nos dedos,
sabe que me tem e se aproveita de mim,
deste pobre coração que não tem freio
pra fazer de mim seu rendez-vous.
E quando de um susto descobrir,
quando de repente perceber que
eu entrei devagarzinho nos seus sonhos,
quando ler toda a música dos meus olhos
e quiser beber meu oceano,
uma vida vai ser muito, muito pouco.

Want you to take me, take me,
oh, take me to the dreamer's ball.

domingo, junho 19, 2011

"Os dias viraram um fio contínuo
onde noite e dia se misturam,
se misturam a dor e a alegria
tão rapidamente, e sem que eu perceba,
que não sei mais se a hora é de rir ou de chorar.
Não sei mais me comportar socialmente
e essa imensa rede tecida de jogos, de estratégias e de malícias
pesa mais que trinta elefantes.
O segredo inerente da existência me cansa
e eu chego,
como viajante que aproxima da fronteira,
perto demais de expôr todas as minhas verdades.
Perto demais de dizer que o que eu quero não é nada do que eu disse,
e de revelar de vez os meus segredos.
De contar os meus motivos e ler o que você acha disso,
e saber se teu coração é grande o suficiente
pra suportar a prosa e a poesia que eu respiro."

segunda-feira, maio 23, 2011

Como são tristes os momentos da existência
em que a gente se dá conta,
como que acordando de um sonho,
que o viver no fim das contas
é um evento totalmente solitário.

domingo, maio 22, 2011

É quase Junho,
e em mim o ano mal começou.
O que fazer daquela lista,
aquela de promessas e novos hábitos
de poucos meses atrás?
O que fazer pra segurar o tempo na coleira,
frear sua habilidade master
de fazer mágica com o calendário,
onde comprar uma gaiola que o prenda
mas que o deixe cantar de vez em quando?

Passeiam pelos meus dedos
as horas que não me esperaram chegar,
passam por mim como trem veloz
que não deixa amadurecer a paisagem
por onde passam seus trilhos.
Se encondem, tímidas da sua aparência etérea,
da volatilidade dos seus tantos braços
e da falta de exatidão das suas cores.

E nessa falsa inocência,
entre o rastro de riso e de vento que deixam pra trás,
fico eu, inconsolável com tudo o que herdei.

segunda-feira, maio 16, 2011

A palavra, uma vez que nasce,
cria vida e sai voando da boca da gente
feito passarinho ligeiro.
Na sua pureza não sabe
se é feia ou se é bonita,
doce ou azeda de tudo;
sai por aí beijando os olhos
e ouvidos dos passantes
e enchendo o ar de verdades.

Vai planando e só quer saber de brincar,
não sabe do poder que tem:
de lavar sorrisos de uma cara
ou de fazer lembrar de coisa boa.
A palavra, uma vez que nasce,
cria vida e sai voando da boca da gente.

sábado, abril 16, 2011

Rendicao

E eu nao sei mais o que fazer,
nem como levar os dias que me restam
quando a vida que eu vivo no sonho,
que eu vivo na fantasia minha,
me convida mais que aquela
do abrir de olhos.

Quando de dia
o meu sorriso é feito de vento.

Como competir com esse mundo de mentira,
com esse labirinto imaginado
se nele você vai sempre a um lábio de distância,
a um par de braços de mim?
Quando há tanto tempo para me demorar no seu peito
sem que o relógio devore as horas,
como não querer estender o sono,
indefinidamente?

Me rendo,
me entrego,
desisto,
perdi.

domingo, março 13, 2011

Maldito homem moderno e seus 100 giga de informação,
maldita avalanche incessante de notícias,
maldito o acúmulo de conhecimento.
Amaldiçoado seja o carro do ano, o gadget de amanhã,
o financiamento que endivida eternamente por banalidades.
Que morra toda regra inútil de conduta,
todo bom comportamento e toda alienação,
que cessem todos os noticiários por um ano.
Que emudecam os automóveis e suas buzinas,
as bancas de jornal e seu fluxo alienígena de novidades.
Que se extingua a obrigação social do jantar de negócios,
o crime de repetir a mesma roupa em festas diferentes,
a monogamia, a monografia e a novela das oito,
que evaporem os paparazzi da vulgaridade e suas lentes de aumento.
Os economistas e seus gráficos de Babel.
Organizemos um velório de proporções nunca vistas,
vamos enterrar em covas consecutivas os salários,
as segundas-feiras, a comida já envenenada e a água de garrafinha.
Vamos botar abaixo tudo aquilo que rejeitamos,
os arranha-céus, as academias de ginástica e as antenas parabólicas.
Abençoada seja a nossa capacidade de mudança.

sexta-feira, março 11, 2011

E eu vejo o desenrolar do dia de chuva:
dessa água que cai do céu pra lavar desejos,
da calma que invade o ânimo e acorda a alma,
desse exército liquefeito de gotas ínfimas.

E eu me vejo saindo da casca pra ver o dia,
e eu sinto voar do peito esse canto tímido.
E deixando entrar a chuva nos meus cabelos
eu encharco, afogo todo o peso da vida.

É preciso pagar pelos pratos partidos do futuro,
pela tarde, pela noite mal dormida
pelas tantas palavras já ditas e ja repetidas
pela preocupação constante com minúcias.

terça-feira, março 08, 2011

Essa é poesia pra se ler devagar,
pra se ler respirando fundo...
pra se ver esquecendo as horas,
esquecendo o tempo,
esquecendo o mundo.....

Pra se ler ouvindo Piazzolla,
se sentir devorado a fundo
pra trancar os monstros pra fora,
anular o drama de tudo

Pra soltar o que aconteceu e o que nao será
e ensinar a desaprender a se controlar,
dissipar a infinita bobeira do receio:
sustentar o ser e esquecer qualquer traço de medo

é pra amenizar as idéias dai de dentro,
celebrar a falta de rima da essência
pra deixar se misturarem claro e escuro,
e pra esticar de fato as reticências
E é desse encanto que eu falo e não me canso,
dessa onda de desejo acumulado...
dessa ânsia que espreita atrás da porta,
desse vulto que me cerca e olha,
do jogo que não cessa quando corre ou quando pára:
desse enfarte do beijo roubado.