domingo, fevereiro 19, 2006

Conto de Copas e Espadas

_____"Não era uma vez, mas uma vez aconteceu...e por acreditar nos contos e nas fadas das crianças é que se pôde no assoalho perceber a agitação de umas caixas de baralho, e espiar mais de pertinho pra saber qual o motivo do barulho e da lambança. Foi uma dessas meninas que viu, do lado de cima, e que depois contou o conto, sem ponto de aumento nem nada; e que acredite quem puder voar mais alto...
_____Mas o caso que se conta, no final do fim das contas, é que sem que ninguém desconfie as cartas juntam-se, imagine!, duas vezes por quartil, numa espécie de in memmorium lá por volta de Abril, onde dançam, bailam e bebem vinte dias sem parar. Cada naipe traz consigo uma espécie de homenagem que remonta aos tempos dos mouros, dos cavalos e moagens, das toadas, das cantigas, histórias imaginadas. Eis que esse ano, justamente, Copas e Espadas resolveram juntar mentes, e juntamente cantar para os outros uma história, da glória, luta e memória de uma vila, a das Cem Horas. Depois do Ouro e de Paus, foram os Reis de cada qual representar toda a família. E o que disseram com ribaltas, mil violinos e flautas, foi que um dia foram vivos como todo bom humano, até que um amor mal visto alterou de vez os planos, e acabou na perdição. Copas, Paus, Ouro e Espada foram quatro linhagens distintas, cada qual com seu Rei e seu reino, mas todos numa só vila, mesmo não convivendo com jeito.
_____Um desavisado rapaz, de Copas e andando em paz, passou dos limites de um reino e acabou por passar, com efeito, pro reino que estava ao lado. Encontrou uma donzela que jamais se viu tão bela e que tomou seu coração, com doçura em uma mão e Espada em anel forjado. E a tal moça que ali estava colhendo umas flores, sentada, nem sentiu que o vento leve na verdade traria, em breve, um amor pra ser guardado.
_____Sem ligarem pro depois congelaram o agora, e embaixo de um pé de amora foram levados pela tarde, embalados por um mar de brisa e surtos de vontade. As horas duraram anos onde os toques mais profanos transformaram-se em carinhos, e a relva e o céu de veludo selaram assim em conjunto toda a musicalidade. Da dor fez-se o abraço, da mesmice, o cansaço, e das grades, aliança, de modo que ao despertar prometeram se encontrar no amanhã pra mesma dança.
_____Não viveram nesse dia, permaneceram planando enquanto a manhã se ria, esperando pelo instante em que os dois amantes insanos concretizariam seus planos. Chegado o singelo momento os dois jogaram-se ao relento desejando morrer pelo agora, e as cenas de outrora se repetiram eternamente. Mas na mente de um soldado que passava ali ao lado algo estranho acontecia, naquela hora do dia os campos sempre estavam calmos. Mas de onde vinham os risos que se ouviam lá de longe, como pássaros feridos cujo canto ecoa aos montes? Foi averiguar o fato, e qual foi sua surpresa quando reparou no ato de pureza e desacato?
_____Sem demora e resolutos, ainda tomados de susto, os três se entreolharam desejando se esconder. Porém o soldado do Rei, leal ao seu mestre de Copas, correu pela trilha de volta pra contar o acontecido, e acometido de raiva arrastou pela estrada o encantado pela Espada. A moça, entregue aos prantos, viu quebrar-se todo o encanto do infinito em um segundo, e em silêncio ali ficou vendo o céu cair no mundo por três horas sem parar, tentando acreditar que não foi sonho ou delírio. No campo cresceu uma flor brotada de sal e dor que ali por fim nasceu, depois que a brisa bateu e levou o amado embora: assim que surgiu o Lírio.
_____Para o moço o caminho demorou eternidade, pois tomado de saudade os ponteiros se arrastavam; com receio de jamais voltar a ver sua donzela, deixou pistas para ela sob forma de recados, e em galhos pendurou (longe das vistas do soldado) dezenas de flores que achou, embebidas de orvalho; assim pôde ir de encontro ao julgamento que teria, sabendo que cruel seria por tão grande a falta feita.
_____Chegando ao palácio real foi mandado a esperar enquanto o sagaz escudeiro foi, com pressa, ao Rei contar. Em instantes o que se ouviu foi um brado e um estrondo, que enchendo o salão de medo pôs o moço a ficar tonto: “Falta de juízo e senso eu já tinha visto antes, mas tinha você que se meter em tal volúpia e vil romance? Como Majestade de acerca me cabe tomar a atitude de condená-lo à desgraça para manter-se a virtude; será o primeiro exemplo e o último, faço gosto, de que Copas não são feitos pra se misturarem ao povo! E mandem pregar agora em toda praça o recado de que aqui nas minhas terras, com morte se paga o pecado!!”
_____O caso correu nos vales e pousou em todo o canto, de modo que os moradores estagnaram de espanto. A mocinha enamorada desfaleceu na calçada ao saber do triste fim que enfim teria a sua história, e tratou de, sem demora, ir até a praça central onde encerraria afinal o que mal tinha começado. Encontrou pelo trajeto as flores deixadas ao certo pelo amor que procurava...tratou de achar um disfarce para assistir ao desastre e tentar impedir o crime, mas chegando lá se deu conta de que havia fogueira pronta esperando cumprir-se a sentença.
_____O povo todo da vila pôs se a postos ao redor da fumaça que subia prum céu de pesar que, triste, assistia a folia. Trouxeram então amarrado e com capuz, o condenado, que parecia aceitar o mal tão irremediável. A desesperada menina, vendo tudo da esquina, pulou e chegou num salto aos pés do vendado, ao alto, clamando por piedade, e tomada nem se sabe de que tipo de euforia, desvencilhou-se dos guardas e como que por magia, foi ter ao lado do amigo, pra surpresa da cidade.
_____Disparou-se num discurso pra botar banca no povo, pois achava pouco justo sufocar o amor em dobro, e o que disse foi descrito como narra-se agora: “Não vêem, pobres tolos, que encontrar paixão demora? Não sentem em suas rotinas a falta dessa presença? De dar lugar ao carinho em lugar da indiferença? De que vale um reinado quando imerso em egoísmo, onde sequer se percebe que o amor é um correr riscos?...se divertem assistindo duas almas a ruir, um encontro separado, o egoísmo a difundir? Não me canso em ter tristeza por ver tudo tão perdido, e quando acho que me encontro me é tirado o que preciso?”
_____As palavras desfizeram-se no ar no mesmo ato, e as nuvens se lamberam pelas chamas como em quadro. Do peito da moça viu-se como sólido o soluço e rosto quase de vidro, nocauteado e não-vivo, desfez-se de puro susto...correu quase como em vôo até onde o vento levasse, e foi parar num rio rouco pedindo que a vida acabasse. E então tudo foi calor, tudo foi dia e foi delícia, o riso frouxo voltou sem saber pra onde ia, o corpo se transformou sem ver o que acontecia, fundiu-se aos pés de Laranja, de Amora e de Artemísia.
_____Ao ver-se de novo tão louco, o corpo falhou ao olhar, não podia acreditar no que já não admitia: não via em brasas o chão, sumiu toda a multidão, confusão já não havia. Levantou-se para ver se era real o que vivia, e notou tudo igual, tal qual como conhecia; porém tudo era mais vivo, tudo era mais claro, tudo era tranqüilo, e até o que era igual (como ao longe, o roseiral) ficou mais bonito ao dia. O ar dançou nova dança, o mato mostrou-se em trança e as cores ganharam nuances...o pôr-do-sol, já tão puro, mostrou-se então tão seguro como nunca havia antes, e o mar bateu no rochedo de uma forma que, nos dedos, podia sentir-se a firmeza.
_____Imaginem a surpresa quando ainda tonta e presa às imagens já formadas, viu surgir a alma amada montada em raio de luz. Planou um metro em distância, embebida na fragrância que exalam os sinceros, e desafiou as leis que encarceram a matéria quando quis, por inteiro séria, juntar seus corpos num ponto. Os braços se enovelaram de um modo que terminaram de selar o já selado, e longe e livres de tudo se foram, a correr mundo, nesse mundo novo e pronto.
_____Lá atrás as pessoas ficaram do jeito que estavam antes: o mesmo cachorro passava, o mesmo padeiro prensava, a mesma chuva caía... o mesmo dia findava, a mesma senhora varria...e o mesmo mesmo acontecia. Diferente, de verdade, foi a criança que assistia. Vendo o circo ali formado e desfeito num estalo, deixou mostrar-se sua forma natural, bruta, sombria, e aos muitos olhos crescia o que não se imaginava – a menina ali parada era alma a ver a armada, e que agora já não ria. Ao ver os pares de olhos ali fixos, bem parados, resumiu sua morada, seus motivos, seus recados:
_____“Não venho de longe nem perto, venho de um lugar que, ao certo, é bem diferente deste. Me cansei de ver aqui, já que sempre os observo, valores caindo com os dias e ordem marcada com ferro. Intercedo pelos povos que acredito já há tempos, e acompanho as mudanças, pondo em pratos de balança as faltas e avanços feitos...quis crer numa forma pura de bondade e amor divino, mesmo que muito escondido, morando nos peitos seus. Ao que encontro, dou adeus!, não quero ter de ter parte em tal forma injusta de arte onde há o forte e há o fraco, há o moralista e o errado, o rei e o mendigo nato. Há névoa por toda parte escondendo-lhes, na verdade, o real valor da vida...por isso julgo-me sábio e em poder de tecer meio que poupe mais sofrimento, mas que ensine ao melhor jeito o singular que é o viver.”
_____Na praça alguns gargalharam com a louca que, juravam, era maga ou semelhante, mas tirando as reações (diversas como estações), nada movimentava. Continuou a falar e o tal trato, a reforçar, explicando enquanto andava:
____“O meio é simples, consiste em trocar tudo o que existe pra vocês por outro mundo. Serão outra forma de vida, viverão dez mil partidas, cada qual terá seu lucro...serão por fim retornados ao modo a que estão adequados e as coisas serão como antes, exceto pela diferença que sentirão ao, na mesa (de jogo), serem descartados. Verão como é ser desprezado, e como é ser importante; o Rei saberá da exaustão, como é depender de outra mão, e o bobo seguirá adiante, dessa vez como Curinga e não mais sendo da corte. As linhagens existentes seguirão outras vertentes e ao final, se mesclarão; os artesãos serão Ases, e os moradores as bases desse jogo então formado. Por adiantamento é o que digo, o resto será esculpido por vocês a cada dia.”
_____A praça se viu num clarão mais forte que a luz do dia, e a fumaça que, há tempos, da fogueira já subia, retornou e começou a descer e a tomar corpo, pegou todos tão absortos pelo discurso eloqüente que nem pôde se mostrar tão grandiosa e envolvente quanto realmente queria.
_____O resto (ou metade) da história é o ponto de partida, e a festa celebrada é uma forma imaginada de voltar aos velhos tempos. Como cartas já se sabe ou se imagina o que acontece: muito mais fácil pensar, mais horas pra filosofar, idéias lançadas ao vento; mais leves pra se sonhar com o mundo que, ao voltar, verão mais singelo e mais lento...portanto se uma carta ou baralho todo sumir um dia, não se espante e feliz fique, pois dez mil partidas se foram e mesmo com todo o retorno, não se foi a fantasia...”

5 comentários:

LameDuck disse...

Aooo...
Depois de mto tempo, postou o conto no blog :D

como eu já disse que achei legal, não vou dizer de novo. hehe

bjos

Dalmo Celso Sassi disse...

Tão mágica a forma em que construiu tão instigante história. Fiquei ainda a divagar sobre as imensas possibilidades que o desenlace da drama remete. O fio condutor fantasioso do conto foi alucinante!

ass2006 disse...

Hi, a nice blog you have here. You will surely get an bookmark :) xaNax

Guss disse...

Que lindo, Rubinha. Adorei o tom de "versos" no conto. Ficou um jogo de palavras muito interessante e gostoso de se ler!


Beijão

Breno Levi disse...

A beleza do longo me encantou, mas os sonhos são vazios qto a mente deste leigo que te escreve!
vc tem um texto bem parecido com um meu, até me espantei...